terça-feira, 2 de junho de 2015

Vai uma tragada?

O uso contínuo do cigarro e seus riscos

O INÍCIO...

O hábito de fumar tabaco começou com os indígenas das Américas, havendo registros arqueológicos de maias e astecas usando as folhas dessa planta para fumar ou aspirar. Porém, foram os europeus, que, no contato com esses costumes, se apaixonaram e difundiram essa ideia pelo mundo e, principalmente, pela Europa, fomentando o valor monetário do tabaco no comércio internacional na mesma proporção que seu cultivo.
No século XVII, foi criado na Espanha o precursor do cigarro, a partir de rolos de tabaco envoltos no papel. Entretanto, apenas em torno de 1840 que ele foi inventado de fato, promovendo uma produção em série, o que facilitou a difusão e comercialização, atingindo diversos consumidores de várias classes sociais e em todos continentes, tornando-o dominante no mercado tabagístico e alvo de grandes corporações comerciais.

COMPOSIÇÃO




Os constituintes do tabaco se alteram conforme a forma de cultivo, a região de origem, as características de preparação (compactação, filtro e papel) e as variações de temperatura resultantes da combustão incompleta do tabaco. A fumaça do cigarro contém mais de 4 mil substâncias químicas, muitas delas cancerígenas, divididas em duas fases, a particulada ou condensada e a gasosa. Os efeitos indesejáveis dessa fase gasosa são causados pelo monóxido de carbono, dióxido de carbono, óxidos de nitrogênio, amônia, nitrosamidas voláteis, cianeto de hidrogênio, compostos voláteis contendo enxofre, hidrocarbonetos voláteis, álcoois, aldeídos e cetonas. A fase particulada apresenta nicotina, principal causa da dependência, água e alcatrão. Ainda há agrotóxicos, metais, principalmente o cádmio, arsênico e substâncias radioativas, como polônio 210.

DESTRINCHANDO A NICOTINA




A nicotina é uma amina terciária, consistindo em uma piridina e um anel pirrolidina. É um alcaloide líquido natural, sendo uma base volátil, incolor (pKa = 8,5), que se torna marrom e adquire o odor do tabaco na exposição ao ar, tendo meia-vida de aproximadamente duas horas. Ela é absorvida rapidamente e, depois de entrar na circulação, chega no cérebro num intervalo de 10 a 19 segundos. Além disso, é absorvido imediatamente pelo trato respiratório, mucosas orais e pele e na forma mascável pode ser absorvido mais lentamente, causando um efeito de maior duração. 
Essa substância se liga nos receptores colinérgicos nicotínicos (nAchR), típicos canais iônicos composto por três classes principais: musculares, ganglionares e do SNC (Sistema Nervoso Central). O uso crônico de nicotina causa aumento substancial do número de receptores nicotínicos da acetilcolina.
No SNC, ela atua na ativação do sistema dopaminérgico meso-corticolímbico, o que causa um reforço positivo, ou seja, proporciona efeitos euforizantes e prazerosos. Devido ao aumento da concentração da dopamina, leva à dependência. No sistema nervoso periférico, ativa o sistema simpático, resultando no aumento da frequência cardíaca, da contração do coração, vasoconstrição coronária e da pressão arterial, secreção de adrenalina e noradrenalina, liberação do hormônio antidiurético e aumento da concentração plasmática de ácidos graxos livres. O reforço positivo se caracteriza também por relaxamento, redução do estresse, aumento do estado de vigília, melhora da função cognitiva, modulação do humor e perda de peso. A retirada da nicotina causa nervosismo, irritabilidade, ansiedade, concentração e função cognitiva prejudicadas e aumento do apetite, sendo chamado de reforço negativo.

ADVERTÊNCIA




O ato de fumar, inalando essas grandiosa quantidade de substâncias químicas, causa diversos males para a saúde do homem, como cânceres, principalmente de pulmão, podendo ocorrer, também, no rim, laringe, cabeça e pescoço, bexiga, esôfago, estômago, pâncreas, fígado e cólon. Outras doenças pulmonares são comuns, como bronquite crônica, asma e enfisema. O tabagismo está relacionado à diabetes por aumentar a intolerância a glicose, ao aumento dos níveis plasmáticos de ACTH e cortisol, podendo causar modulação do humor e osteoporose,  aumento de LDL e diminuição de HDL pelo aumento de ácidos graxos livres, favorecendo casos de trombose, redução da fertilidade nos homens e precipitação da menopausa em mulheres; sendo que em grávidas, pode ocorrer alterações no desenvolvimento neurológico e do sistema respiratório da criança.
Muitos pessoas começam a fumar quando entram na vida acadêmica. Em uma pesquisa feita em 2008, com alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro, notou-se que a incidência de tabagismo era de 15,8% para mulheres e 22% para homens, sendo que do total de fumantes, 60% eram do sexo feminino. A porcentagem aumentava de acordo com o prolongar do curso e  46,5% dos fumantes já tentaram parar e não conseguiram, o que mostra que a dependência à nicotina é persistente.
Um grave problema é o tabagismo passivo, pois mesmo sem fumar, o indivíduo inala as substâncias do cigarro igual o fumante, afetando também crianças e prejudicando seu desenvolvimento. A OMS considera a fumaça do tabaco o principal poluidor de ambientes fechados.

SOLUÇÕES




Já houve o tempo em que fumar era chique. Desde 1986, o governo brasileiro tenta frear o consumo do tabaco por medidas proibitivas e restritivas. Desde 2014 está em vigor a lei antifumo, que proíbe fumar em locais fechados e propagandas de cigarros e extingue os fumódromos. Além disso, 100% da parte de trás das embalagens de cigarro e uma das faces laterais necessitam ter imagens e mensagens de alerta sobre os riscos de fumar.
Em 1987, a ONU instituiu o dia 31 de maio como o Dia Mundial sem Tabaco, sendo uma data voltada para a conscientização das pessoas sobre os efeitos nocivos do tabaco por meio de diversas campanhas.

Cuidado com o cigarro pessoal!!




Referências:
  • SPINK, Mary Jane Paris; LISBOA, Milena Silva; RIBEIRO, Flávia Regina Guedes. A construção do tabagismo como problema de Saúde Pública: uma confluência entre interesses políticos e processos de legitimação científica. Interface- Saúde, Educação e Comunicação, São Paulo, v. 13, n. 29, p.353-365, 06, 2009. 
  • CUNHA, Gilmara Holanda da et al. Nicotina e tabagismo. Pesquisa Médica, Fortaleza, v. 1, n. 4, p.1-10, dez. 2007. 
  • MAGLIARI, Rafael Thiesen et al. Prevalência de tabagismo em estudantes de faculdade de medicina. Rev Med, São Paulo, v. 87, n. 4, p.264-271, dez. 2008. 
  • TODA BIOLOGIA. Tabagismo: O que é tabagismo, suas conseqüências para a saúde, doenças provocadas pelo fumo, dependência da nicotina. Disponível em: <http://www.todabiologia.com/saude/tabagismo.htm>. Acesso em: 02 jun. 2015. 
  • ACTBR. TABAGISMO PASSIVO: A 3ª MAIOR CAUSA DE MORTE EVITÁVEL DE ACORDO COM PESQUISA AMERICANA. Disponível em: <http://actbr.org.br/pdfs/fact-FUMO-PASSIVO.pdf>. Acesso em: 02 jun. 2015.
  • Governo do Estado de São Paulo. SP proíbe cigarros em ambientes fechados de uso coletivo. Disponível em: <http://www.leiantifumo.sp.gov.br/portal.php/lei>. Acesso em: 02 jun. 2015.

3 comentários:

  1. GRUPO L
    Muito interessante e esclarecedora a postagem dessa semana. O consumo de álcool (tema do post anterior) e o tabagismo são bem recorrentes no meio acadêmico, devendo-se redobrar a atenção sobre os mesmos. Segundo um estudo transversal realizado na faculdade de medicina da UFPel em 2002, com amostra de 447 alunos, apresentou tendência positiva entre o tabagismo e o ano do curso, sendo que no primeiro ano apenas 5,0% consumiam tabaco, e no último ano 15,0%. Isso comprova que o consumo de cigarro é crescente ao longo dos anos da vida acadêmica dos alunos. Esses dados mantém uma relação com o fato de o cigarro ser uma droga lícita e de fácil acesso no Brasil, além de aspectos socioeconômicos e psicológicos que permeiam a vida acadêmica. Como ficou bem explicitado no post o principal componente do tabaco é a nicotina, droga psicotrópica que se liga a receptores colinérgicos nos gânglios autônomos, na medula adrenal, na junção neuromuscular e no sistema nervoso central gerando uma resposta bifásica, em geral com estímulo colinérgico inicial, seguido de antagonismo dependendo das doses empregadas. Essas ações aumentam o estado de atenção e sensação de bem estar, aumentam a capacidade de memória e provocam dependência, pois ativa o sistema dopaminérgico mesolímbico. Além desses efeitos imediatos, o uso crônico do tabaco gera uma série de efeitos maléficos à saúde que foram relatados na postagem. Assim, em virtude do uso banalizado do cigarro e dos seus diversos efeitos deletérios para o organismo, torna-se imprescindível o planejamento de mais medidas antitabagistas para se evitar que o jovem inicie o hábito de fumar no âmbito escolar e universitário.
    REFERÊNCIA
    RAMIS, Thiago Rozales et al. Tabagismo e consumo de álcool em estudantes universitários: prevalência e fatores associados. Rev. Bras. Epidemiol. 2012; 15(2): 376-85

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  2. Ótima postagem, pessoal! Aproveitando que eu faço parte do blog que fala de emergências cardíacas (dá uma olhadinha: http://medgrupoe.blogspot.com.br/), procurei uma relação entre a nicotina e o sistema cardiovascular e vi que a ação dessa substância se faz fundamentalmente através do estímulo adrenérgico. Receptores colinérgicos nicotínicos ativam gânglios autonômicos com subseqüente liberação de noradrenalina pós ganglionar e adrenalina da medula supra-renal. Observam-se, como efeito clínico, taquicardia e hipertensão arterial. A nicotina provoca, ainda, vasoconstricção periférica com redução da temperatura cutânea e aumento da resistência periférica.
    REFERÊNCIA:
    http://publicacoes.cardiol.br/abc/1996/6606/66060009.pdf

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  3. Grupo D:

    Muitos estudos trazem a informação de que fumar faz mal a saúde em vários aspectos. O sistema imunológico dos fumantes tem de trabalhar cada dia mais do que os não-fumantes. Como resultado, o sangue dos fumantes contém menos antioxidantes, embora o sistema imunológico possa responder mais rapidamente a ataques de vírus, devido à sua natureza.
    Mas a patologia que mais se associa ao ato de fumar é o câncer de pulmão. Isso acontece porque um derivado da nicotina NNK é semelhante aos agonistas dos receptores β-adrenérgicos e podem ativar esses receptores das células epiteliais pulmonares. Essa ligação dá o sinal necessário para a célula começar a se proliferar. Isso demonstra que a nicotina tem ação sobre o início do câncer de pulmão. O adenocarcinoma é causado por uma cascata de reações que envolve o AMP cíclico(cAMP) e a proteína cinase A (PKA) resultando na síntese de DNA e proliferação da célula. O câncer é desencadeado nesse caso pelo aumento dos Transcription factors (Fatores de trancrição) que aumentam a Proliferation (Proliferação).
    Este é apenas um dos exemplos de como a nicotina está relacionada ao desenvolvimento do câncer de pulmão.

    Referência:
    http://www.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/pulmao/

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